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Um
dia......Chegamos !
Era
uma vez um grupo de 3.342 jovens brasileiros que, nos
idos de 1970, decidiram prestar concurso para as 320
vagas do Curso Preparatório de Cadetes do Ar - 1971, na
EPCAR.
Vocação,
necessidade, aventura, perspectiva de independência,
exemplo de parentes...quantos motivos diferentes moviam
esta parcela da juventude brasileira em direção à
Escola...quantas esperanças...
No
dia das provas, em várias cidades brasileiras, rostos
desconhecidos, a maioria ainda imberbes, se aglomeravam
em frente aos locais de concentração dividindo a
ansiedade e a apreensão.
E
o resultado das provas foi divulgado... Alegria para
uns, desilusão para outros...
Aos
classificados nesta primeira fase, restava ainda os obstáculos
do exame físico e médico: pé chato, miopia, o copo de
"mingau" de água e açúcar que nos faziam
ingerir antes do eletroencefalograma, os desenhos (casa,
pessoa e árvore) e a entrevista com o psicólogo,
tantas perguntas sem sentido.
Ao
longo de alguns dias, divididos em grupos, fomos
encaminhados à Policlínica de São Paulo ou ao CEMAL.
Uns se deslocaram por meios próprios, outros foram
concentrados nas capitais de seus estados e
transportados pela FAB via terrestre ou, para alguns
felizardos, via aérea.
Sentados
nas salas de espera aguardávamos a convocação para os
exames que era anunciada pelos alto-falantes. Assim,
aprendemos alguns nomes associando-os às fisionomias
daqueles com os quais iríamos compartilhar o dia a dia
em futuro próximo. Assim, dividimos os temores do exame
oftalmológico, em especial, ou das estórias
fantasiosas sobre o que acontecia no interior daquelas
salas de ar sombrio.
Alguns
não lograram êxito mas, finalmente, após a seleção
intelectual, física e médica, o grupo que
"sobreviveu", apesar de insuficiente para
completar as 320 vagas, estava pronto para seguir
destino.
Era
chegado o dia de se despedir da família e seguir para
uma vida quase independente. Os pais exibiam emoções
conflitantes: orgulho, alegria, tristeza e saudade. Os
filhos, o receio do desconhecido. O que os aguardava era
uma incógnita que só seria desvendada em alguns dias,
longe de casa e do apoio dos entes queridos.
A
primeira etapa, que se resumia numa viagem até a
Escola, foi solitária para aqueles que se deslocaram
por meios próprios e uma grande aventura para os que
optaram por se reunir em São Paulo ou no Rio de
Janeiro, antes da etapa final a ser percorrida em ônibus
fretados pela própria EPCAR.
Em
linhas gerais, o pessoal do sul do país e os paulistas
se concentraram no COMAR 4, em São Paulo, e os demais
no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.
Foi,
realmente, a primeira grande reunião da Turma 71. Ali
começamos a estreitar laços de amizade, a aprender a
conviver com pessoas de diferentes modos e costumes, a
criar uma linguagem própria, a entender que chamar um
companheiro de "filho disto ou daquilo" não
visava, necessariamente, atingir a integridade da família
alheia pois, no fundo, passávamos a ser filhos da mesma
mãe: A Pátria. A viagem se iniciou e, de repente,
quase sem perceber, havíamos chegado...
Manhã
de sol. Um burburinho de agitação percorria a histórica
Escola. Apesar de se repetir a cada ano, a chegada de
uma nova Turma sempre guardava uma característica
especial. Para os que chegavam tudo parecia ser
novidade; o olhar vislumbrava os aspectos mais
vibrantes; o coração acelerava; as mãos e pernas
tremiam levemente; a emoção se misturava à
curiosidade. Uma nova etapa da vida se iniciava.
Lá
estava a bandeira desfraldada. Ali estava o grande pátio
que seria o inseparável acompanhante de nossas horas de
exercícios.... e caminhávamos todos, tendo no rosto
estampada a esperança que alimentávamos, tendo no espírito
a coragem e o ideal que nos faziam ali presentes.
Todos,
lado a lado, nem se conheciam, iam e vinham com suas
malas enormes, seus cabelos compridos e roupas que em
nada se assemelhavam aos uniformes que passariam a
utilizar. Um novo caminho se lhes abria. Uma nova
esperança eles alimentavam, as aspirações começavam
a tomar forma.
E
eles chegaram. Ao som da Banda Marcial o Hino do Aviador
ecoava nos ares e ao retumbar do bumbo entre acordes e
ritmos, eles se opunham em filas. E a harmonia dos sons
ecoava mais forte.
Com
seu hino de louvor, a Escola saudava seus filhos... E
eles iam e vinham: De passo em passo sem saber como, de
sorrisos e vibração sem saber porquê.
Tudo
trazia à tona o grito de guerra de cada um. Tudo
transmitia a todos uma nova missão a ser cumprida e um
novo objetivo a conquistar.
A
banda continuava e o desfile prosseguia qual turba
desordenada de homens não adestrados. E tudo começou
assim, e a nossa vida ia ser vivida; e o velho sonho
tornar-se-ia realidade.
Assim,
chegamos um dia. Éramos então, os 320 alunos que
constituíam a Turma 71 da EPCAR. Porém, na concentração
final ou mesmo durante o período inicial de adaptação,
alguns companheiros resolveram desistir. Uma das versões
para a desistência era atribuída à Síndrome de
"Saudade da Vovó".
Para
completar as vagas remanescentes, foram convocados
outros aprovados que já haviam realizado os mesmos
exames. Era a turma "XY" que, alguns dias
depois, também experimentaria a especial sensação de
cruzar pela primeira vez o Portão Principal da Escola.
Incorporados
ao grupo principal, a Turma 71, agora com 321 alunos,
estava pronta para iniciar sua caminhada pelas trilhas
da FAB.
Sabemos
que todos foram conduzidos àquela Escola por um nobre e
elevado ideal. Deixaram, assim, o regaço acolhedor de
seus familiares com o objetivo de se preparar para uma
vida ou profissão que ainda é, inegavelmente, uma das
mais belas e empolgantes. Enfrentaram, deveras esperançosos,
os obstáculos que apareceram, porque, e assim não
fora, não conseguiriam realizar aquilo a que aspiravam,
e desapareceria o anseio, sublime e invejável, de um
dia cortar o esplêndido azul de nossos céus,
encurtando distâncias e levando até outros continentes
a presença deste imenso Brasil.
Em
nossa breve passagem pela Escola, muitas coisas nos
marcaram profundamente. E também, muitas coisas
deixamos marcadas. Foram três anos de muitas alegrias e
de tristezas. Foram três anos de experiências, que nos
valeram pelos anos já vividos em nossa jovem existência.
Muito lutamos e muito ainda teríamos que lutar.
E
isso a Escola nos ensinou muito bem. Mas, não foi só
isso. Ela nos ensinou a valorizar cada ser humano pela
sua origem divina, feito à imagem e a semelhança de
Deus; a aceitar e conviver com as diferenças sem
preconceito ou discriminação, pois todos compartilhávamos
as mesmas tarefas, obrigações, satisfações e
dissabores do dia a dia. Sempre dependíamos uns dos
outros. Foram três anos de companheirismo vivido sob o
mesmo teto, a mesma luta e sob o mesmo ideal a espargir
sobre nós a mesma luz que nos guiava para um mesmo fim.
Juntos
aprendemos a "Istudá prá dá aligria prá
papai!!"; percebemos que nem um
"Super-Bicho" é capaz de atravessar uma porta
de vidro; cantamos músicas que contavam nossas
desventuras como "Turma cobaia"; aprendemos a
estória do Barão de Barbacena e outras que se tornaram
parte do folclore da turma e da própria Escola;
enfrentamos o grau relativo nas provas; conhecemos,
enfim, a vida com uma enorme família de trezentos e
tantos irmãos e outros tantos "tios ou primos mais
velhos".
Juntos
sofremos, juntos nos alegramos, juntos, enfim, vivemos a
dor da renúncia, da perda de um companheiro e o prazer
das pequenas, mas profundas vitórias que alcançamos.
Hoje,
diante de nós as lembranças das aventuras acenam
docemente, como capítulos de um grande livro escrito a
321 mãos...Ou seriam 642?
E
no momento em que os nossos corações suspiram, alguns
acontecimentos voltamos a relembrar desta nossa breve e
profunda experiência. São alguns fatos que mais nos
marcaram...
Revivemos
a primeira semana de instrução.... a tão intimamente
conhecida por nós como "Período de Adaptação"
ou "Quarentena". Foi nessa primeira semana que
tomamos contato com as primeiras dificuldades de nossa
vida na Escola. Mas nós as vencemos. E vencemos graças
à vivência em comum, pois que, ao vermos aquele
desconhecido ao nosso lado vencê-las, nós também éramos
levados a superá-las.
A
NAE (competição esportiva entre os alunos do Colégio
Naval, ESPCEX e EPCAR) realizada em nossa Escola, logo
em nosso primeiro ano. O juramento à Bandeira, também
no primeiro ano, o Sete de Setembro em São Paulo, no
segundo ano, e quantas estórias mais...
A
NAE realizada no Colégio Naval: Aquela em que o Troféu
Geral seria disputado pela última vez, ficando
definitivamente em poder da Escola vitoriosa. Foi com
muita vibração que, no regresso à EPCAR, dividimos a
satisfação e o orgulho pela conquista com os demais
companheiros e com a cidade de Barbacena, a qual
participou de nossa alegria juvenil, ciente de ter sido
em seu seio que alcançamos a verdadeira maturidade física,
intelectual e militar.
E
as marchas? "- Haverá Cabangu este ano?" A
pergunta se repetia durante todo primeiro semestre de
cada ano. Na EPCAR, o nome da fazenda onde nasceu
Santos-Dumont significava o ápice do treinamento
militar - o último ocorrera em 1968.
Não
houve em 69, 70, 71 e 72, porém...em julho de 73...
Depois
de horas a bordo de um trem repleto de estórias e
aventuras, realizamos uma marcha de vinte quilômetros,
de Santos-Dumont até a Fazenda. Ali acampamos no dia
19, à tarde, após cinco horas de caminhada.
Nossa
presença abrilhantaria a comemoração do Centenário
de Nascimento de Alberto Santos-Dumont realizada no dia
20, na presença de diversas autoridades. À tarde, com
pressa, deixamos a Fazenda: Já era tempo de férias!
Cabangu era a última atividade do semestre.
E
após mais um período de férias, voltávamos
revigorados e prontos para o dia-a-dia da Escola: As
conversas sobre os dias de descanso, as aventuras, os
amores, e o encontro com mestres e instrutores.
Falar
da Escola é lembrar daqueles que tiveram fundamental
participação na formação deste grupo, pessoas
excepcionais que se tornaram exemplos a serem seguidos.
Cada um deixou conosco um pouco de si mesmo, assim como
levou algo de cada um de nós. Nesta troca de experiências
e na lembrança de nosso convívio temos a certeza de
que fomos importantes em suas vidas assim como eles o
foram nas nossas.
Messiê
Tibô, Vernier, Ogro, Cachorrão, Pedal, Chumbinho,
Baratão, Cabeção, Segamães, Senna: "- O maior
piloto de T-6 vivo sobre a face da Terra"...
Estes
e quantos mais contribuíram no desenvolvimento da
mente, do físico e do sentimento de irmandade do grupo.
Agora, nossa lembrança e admiração se reporta àquele
que compartilhou conosco suas aventuras e desventuras até
o momento de nos deixar para sempre: Charles Astor.
Quando
chegou à Escola, um misto de admiração e desconfiança
espalhou-se pelos alunos. Uma personagem histórica
deixava sua privacidade para se juntar a jovens curiosos
e inexperientes.
Durante
sua breve passagem entre nós, angariou a confiança e
admiração de todos pelo seu jeito tranqüilo de nos
ensinar a superar as quedas, os tropeços e os nossos próprios
limites na vida, enquanto pensávamos estar
transmitindo, somente, as técnicas da cama elástica.
Partiu
como chegou: De repente... sem aviso prévio. Uma manhã
de segunda-feira regressamos à Escola e nosso mestre
havia realizado seu derradeiro salto, desta feita para a
eternidade.
Foi
levado à sua última morada pelas mãos daqueles com
que dividiu seus últimos dias. Seu corpo percorreu um
imenso corredor de honra, formado pelos alunos que se
encontravam na Escola naquele fim-de-semana; seu espírito
e exemplo, ainda hoje, fazem parte de nossas lembranças.
Nossa
mente voa livremente... flashes daqueles tempos vão se
apresentando... estórias completas, outras não...
momentos alegres, outros nem tanto. Recordamos dos
amigos, mestres, instrutores, comandantes. Reviver
aqueles tempos é viajar na imaginação para a EPCAR e,
sem dúvida, para Barbacena e os "Camofos",
termo às vezes pejorativo, às vezes carinhoso com que
nos referíamos aos nascidos na "Cidade das
Rosas".
Falar
da cidade é lembrar com carinho da nossa companheira de
caminhadas e corridas da PA. Não adiantava se esconder
ou fingir ser um cidadão comum, para ela seríamos
sempre os "Lindos passarinhos, azuis, da cor do
manto de Nossa Senhora". Isabelinha era assim:
Percebia a nossa presença como se tivesse um sexto
sentido, uma percepção extra para detectar-nos, em
grupo ou solitários, e ia logo dando o seu carinhoso
cumprimento que funcionava como "alarme" para
os "camofos" e para a PA.
O
fato é que nenhum aluno lhe passava despercebido. A
ligação entre ela e nós era de pura afeição por
este grupo. Não por esta ou aquela turma, mas pelo
Corpo de Alunos que para ela era imutável em todos os
anos.
Isabelinha
pertencia àquele grupo de pessoas que não vêem a
realidade da vida. Sua inocência permitia-lhe ver
somente aquela parte doce e afetiva que se vive. Isto
lhe proporcionava o sorriso constante que nos dirigia
suas invariáveis e elogiosas palavras. Trazia na voz
uma tonalidade que sensibilizava e atraía, identificava
e afeiçoava. Com ela não se conversava sem sorrir.
Na
certa que sua figura bizarra, de traços que lembravam
uma antiga beleza, de palavras que sugeriam cultura, a
todos impunha indagações sobre a razão que a levaram
a ser uma personagem incorporada às lembranças que
levamos da EPCAR e de Barbacena - A Cidade das Rosas.
Decorridos
três anos, 114 companheiros (13 no primeiro ano, 30 no
segundo e 71 no terceiro) não conseguiriam atingir o êxito
final; ora por reprovação em exames de saúde, ora por
outros e inesperados motivos. Assim, sentiam-se como águias
de asas partidas, sendo forçados a outros caminhos,
podendo ser belos e dignos, longe, porém, de ser aquilo
com que sonhavam desde quando ingressaram na EPCAR.
E
pensar que, no início do curso, éramos apenas
"ilustres desconhecidos" e, ao final, tanta
coisa conhecíamos uns dos outros. Para sempre seríamos
pequeninas partes de vida de cada um, como diversas
circunferências que se cortam. Ao final do último ano
letivo, venturoso para muitos e de desilusão para
outros, constatamos que esta havia sido, acima de tudo,
uma feliz oportunidade de adquirir novas experiências e
de construir boas e sólidas amizades.
Mil
rumos se apresentaram, separando vidas que em três anos
conseguíramos unir. E cada um seguiu seu próprio
destino que, por vezes, acabou por se confundir com o
dos outros.
Na
vida de cada um, porém, nunca se apagou a chama dos
verdadeiros e nobres ideais formados durante aqueles
anos de convívio, alimentando um estado de espírito
que no jovem jamais pode faltar.
No
século conturbado em que vivemos, de transformações
sociais inevitáveis, em que os nobres valores sofrem
tremendos impactos de um mundo em crescente evolução,
é confortante saber que muito ainda se pode esperar de
uma geração que ingressou na EPCAR em 1971.
Em
nossa memória ainda vive a lembrança daquela nossa
estreita convivência. Nunca estaremos separados...
Amamos
a Paz, cumprimos as ordens, contribuímos para o
progresso. E para concluir a última cerimônia na
EPCAR, desfilamos garbosamente.
Foi
assim que, sob os brados do juramento eterno à Bandeira
Nacional, a Nação sobrepôs o manto sagrado da
cidadania sobre nossos jovens ombros e a Pátria, a
maioridade de seus novos filhos.
Ao
término do Curso, dos 321 alunos inicialmente
matriculados na Turma 71 da EPCAR, apenas 207 (64%)
foram matriculados na Academia da Força Aérea - AFA.
Bem...mas
daí em diante já é outra estória que eu conto
depois.
(Adaptação
da Revista Senta a Pua 71 feita por Oscar, Rômulo e
cia.)
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